O fenômeno da eleição do palhaço Tiririca para deputado federal por São Paulo – com mais de 1,3 milhão de votos – não é uma novidade na política brasileira. Nas duas últimas eleições pelo mesmo Estado, os deputados mais votados foram Enéas Carneiro e Clodovil Hernandes, para ficar em exemplos reais e próximos. Também é similar ao tipo de voto de “Cacarecos” e “Macacos Tiãos”, na época da cédula. Trata-se de uma espécie de voto de protesto às avessas, em que a maior parte do eleitorado deposita o voto naquilo que foge do estereótipo do político tradicional. No caso específico de Tiririca devemos levar em conta ainda a genial tirada – do ponto de vista da propaganda – “pior do que tá não fica”.
Muitos de nós temos responsabilidade nisso. Ou alguns não repetem o tempo todo que a política institucional é uma coisa ruim, feita por gente corrupta e mentirosa? Ao eleitor, o candidato pareceu ao menos ser sincero e irreverente – em tempos que o moralismo e o politicamente correto dão o tom conservador e monótono da política.
Tudo isso é péssimo, não faço aqui uma defesa do palhaço, mas é um acontecimento que tem um certo limite. Primeiro: quase sempre acontece apenas uma vez com o mesmo candidato, pois há toda uma liturgia que envolve o cargo que faz com que o diferente se torne parecido. Segundo, é um fenômeno de eleições proporcionais (vereadores e deputados) não se repetindo nas eleições majoritárias por conta da maior relevância que nossa cultura política dá a esses cargos, e também porque a disputa envolve uma visibilidade só suportável para “iniciados”. Terceiro, ao contrário do que pregam os fatalistas, os mandatos desses parlamentares costumam ser discretos, à sombra dos políticos tradicionais, sendo logo cooptado pela situação ou oposição e, assim, pouco propondo e votando de acordo com a conveniência. Isso é muito ruim, mas não é diferente do que boa parte dos parlamentares faz.
Me incomoda a espécie de indignação, que mais parece um certo “nojinho” de uma classe média que se julga culta e politizada (e de uns “pé-rapados” que se acham classe média) quanto a eleição de Tiririca. Bradam raivosos aos quatro ventos que “o povo não sabe votar”, “é por isso que as coisas não mudam nesse país”, “que depois o povo reclama, mas tem o que merece” e outras coisas piores. Esses quase nunca mencionam que o mesmo estado que elegeu o Tiririca, elegeu e reelegeu Alckmim, Kassab, Serra, Maluf, Pitta, Fleury, Tuma, Quércia etc. Entretanto, não é só paulista que vota mal, precisamos olhar para o nosso próprio umbigo.
Fui professor da rede estadual de Santa Catarina por 5 anos. Imagino – como presenciei em outras eleições – a papagaiada que boa parte dos meus colegas repetiram essa semana entre si e, o mais grave, aos alunos sobre o Tiririca e similares, incapazes de enxergarem a própria realidade. Em Santa Catarina, muitos de nós temos o triste hábito de nos julgarmos superiores ao resto do país. Como se o Sul - e em especial o Estado - fosse mais educado, consciente, independente do governo e, principalmente, trabalhasse mais que o resto do país. Há muito fascismo, racismo e separatismo por essas bandas. Fosse Tiririca eleito em algum Estado do Nordeste, choveriam afirmações preconceituosas por parte dos catarinenses. Ainda assim, sou capaz de apostar que alguém deve ter culpado os nordestinos de São Paulo.
Continua...
Muitos de nós temos responsabilidade nisso. Ou alguns não repetem o tempo todo que a política institucional é uma coisa ruim, feita por gente corrupta e mentirosa? Ao eleitor, o candidato pareceu ao menos ser sincero e irreverente – em tempos que o moralismo e o politicamente correto dão o tom conservador e monótono da política.
Tudo isso é péssimo, não faço aqui uma defesa do palhaço, mas é um acontecimento que tem um certo limite. Primeiro: quase sempre acontece apenas uma vez com o mesmo candidato, pois há toda uma liturgia que envolve o cargo que faz com que o diferente se torne parecido. Segundo, é um fenômeno de eleições proporcionais (vereadores e deputados) não se repetindo nas eleições majoritárias por conta da maior relevância que nossa cultura política dá a esses cargos, e também porque a disputa envolve uma visibilidade só suportável para “iniciados”. Terceiro, ao contrário do que pregam os fatalistas, os mandatos desses parlamentares costumam ser discretos, à sombra dos políticos tradicionais, sendo logo cooptado pela situação ou oposição e, assim, pouco propondo e votando de acordo com a conveniência. Isso é muito ruim, mas não é diferente do que boa parte dos parlamentares faz.
Me incomoda a espécie de indignação, que mais parece um certo “nojinho” de uma classe média que se julga culta e politizada (e de uns “pé-rapados” que se acham classe média) quanto a eleição de Tiririca. Bradam raivosos aos quatro ventos que “o povo não sabe votar”, “é por isso que as coisas não mudam nesse país”, “que depois o povo reclama, mas tem o que merece” e outras coisas piores. Esses quase nunca mencionam que o mesmo estado que elegeu o Tiririca, elegeu e reelegeu Alckmim, Kassab, Serra, Maluf, Pitta, Fleury, Tuma, Quércia etc. Entretanto, não é só paulista que vota mal, precisamos olhar para o nosso próprio umbigo.
Fui professor da rede estadual de Santa Catarina por 5 anos. Imagino – como presenciei em outras eleições – a papagaiada que boa parte dos meus colegas repetiram essa semana entre si e, o mais grave, aos alunos sobre o Tiririca e similares, incapazes de enxergarem a própria realidade. Em Santa Catarina, muitos de nós temos o triste hábito de nos julgarmos superiores ao resto do país. Como se o Sul - e em especial o Estado - fosse mais educado, consciente, independente do governo e, principalmente, trabalhasse mais que o resto do país. Há muito fascismo, racismo e separatismo por essas bandas. Fosse Tiririca eleito em algum Estado do Nordeste, choveriam afirmações preconceituosas por parte dos catarinenses. Ainda assim, sou capaz de apostar que alguém deve ter culpado os nordestinos de São Paulo.
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